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"A disrupção e a velocidade das coisas: reflexões em um mundo do PIX"

Atualizado: Mai 4

Por Júlio Cezar Rodrigues - Casulo Designer, Publicitário, Professor e Empresário


Num mundo onde tudo é muito instantâneo, as relações (de forma bastante ampla) estão cada vez mais voláteis e vulneráveis. O que muitas vezes é um avanço pode provocar receios e questionamentos da sociedade. Fatos são pouco relativizados e a incerteza sobre a veracidade das coisas é diretamente proporcional ao avanço das tecnologias de comunicação. Sim, temos que falar de comunicação. É como se estivéssemos navegando pelo curso de um rio que temos a certeza de que irá desembocar no mar. Tudo, de alguma forma, acaba chegando a este mar chamado comunicação. Daí surge o primeiro ponto de reflexão: se tudo acaba virando um produto ou subproduto da comunicação, e estamos cada vez mais munidos de informações, por que tantos questionamentos? Por que tamanha desconfiança? Ah, meus caros, este é um dos primeiros sintomas do que costumo chamar de “anestesia seletiva”. E não achem que estão imunes a este sintoma. Todos nós somos acometidos dele em determinado momento de nossas vidas. Ele é simplesmente um mecanismo que nos coloca diante de fatos apresentados das mais diversas formas e pelos mais diversos canais, e anula (de acordo com a conveniência do momento) qualquer poder de análise real sobre o ocorrido. Isso acaba gerando inúmeros “mal-entendidos” cognitivos, que atrapalham qualquer processo de disrupção. Mas que ironia. O que era pra facilitar pode ser facilmente transformado em vilão. Isso mesmo. O excesso de informação pode trazer a banalidade, a superficialidade. Tudo vai depender do quanto nos permitimos “anestesiar" e ignorar fatos. Relativizar sempre é um bom caminho para anularmos o sintoma da “anestesia seletiva”. Quando relativizamos buscamos pontos concretos para compararmos a pontos que nem sempre são concretos. Isso gera uma nova realidade que muda o curso das coisas. Daí, temos o processo disruptivo. Estou sendo bem simplista, mas o fato é que as coisas acontecem assim. Quando a sociedade brasileira se depara com a realidade do PIX, criado pelo Banco Central para ser o pagamento instantâneo brasileiro, ela se divide no mergulho total de uma parcela de pessoas que já vivem inúmeros outros processos disruptivos e em uma desconfiança (mesmo que velada) de outra parcela de indivíduos que preferem sofrer da tal “anestesia seletiva” e ignorar que que isso muda a forma de interagir financeiramente com o mundo.


Aqui surge o segundo ponto de reflexão deste artigo: a velocidade das coisas também é um fato relativo. Sofrer mais ou menos dos sintomas citados por mim anteriormente não significa que uns indivíduos são melhores do que outros ou que uns estejam mais preparados do que outros. É que todo processo de inovação está intimamente ligado ao que hoje denominamos disrupção e cada indivíduo possui sua velocidade de aceitação das coisas. Aceitar nem sempre é instantâneo como fazer um PIX (quem já fez sabe do que estou falando). Requer validação cognitiva, aceitação social, pesquisa, uma pitada de entendimento técnico, necessidade real, desejo de melhoria e etc. Todos esses fatores validam um processo de mudança pleno. Não pensem que ao inventar o avião, no início do século passado, o senhor Alberto Santos Dumont não gerou uma infinidade de desconfianças na sociedade, por mais que ela sonhasse voar. Vejam que a “anestesia seletiva” não é algo novo, muito pelo contrário. Voltamos assim à comunicação. Quanto mais as benfeitorias do PIX em relação à sua velocidade e eficácia ecoarem nos quatro cantos deste nosso Brasil pela voz de seus usuários, mais e mais pessoas embarcarão neste caminho sem volta da modernização dos processos. Reflitam comigo: há pouco mais de 20 anos assinávamos em pedaços de papéis timbrados de bancos, garantindo que estávamos transferindo uma certa quantia de dinheiro para outra pessoa ou empresa. Lembram dos cheques? Nominais ou ao portador. Eles até coexistem com o PIX. Talvez sejam uma certa forma ancestral do que hoje podemos fazer em segundos. Se formos analisar profundamente, a prática de emitir um cheque poderia gerar muito mais insegurança do que fazer uma transação de pagamento instantâneo. Mas era uma prática validada social e culturalmente pelas pessoas e empresas, mesmo que sua velocidade fosse um tanto quanto lenta para que o recurso estivesse na conta da parte que recebia o documento assinado. Era um pedaço de papel apenas. Dependia de um trâmite (e esforço analógico, convenhamos) físico de apresentação do documento, validação, compensação e tantas outras ações que dá até uma certa preguiça em pensar. Mas era o que se tinha de processo na época.


Aqui surge minha terceira e última reflexão: a velocidade de aceitação das coisas independe da velocidade das próprias coisas. O mundo hoje requer agilidade em tudo. Produtividade é cobrada, performance é exigida, números são sempre usados para relativizar ou parametrizar coisas. Estamos mergulhados em uma infinidade de micro-processos que nem mais nos damos conta. Daí tudo tem que funcionar direitinho, senão algo pode dar errado e atrapalhar o curso normal das coisas. Mas e quando uma coisa chamada de PIX surge pra agilizar mais ainda um processo a ponto de torná-lo instantâneo? Em se tratando de dinheiro muitos tendem a questionar, mesmo que na maior parte de nossas transações financeiras modernas o dinheiro já seja um bem virtual. Isso demonstra que a velocidade das coisas não é proporcional à velocidade de aceitação delas. O PIX é o que se tem de mais veloz em transações financeiras. Ele é a disrupção materializada digitalmente. No começo do século passado as pessoas queriam voar, mas desconfiavam do invento do avião. As pessoas querem ser livres e, consequentemente, fazer parte de uma sociedade sem amarras. Mas nem sempre querem acompanhar o caráter instantâneo que um processo disruptivo lhes proporciona. Fazendo referência ao excelente artigo publicado também neste canal, de autoria do ilustre Ricardo Figueira, quando conceitua de diversas formas a expressão CONFIANÇA: está na hora de confiarmos em nossa capacidade interpretativa e mudarmos a velocidade e a intensidade das coisas para que o processo de mudança seja sempre uma constante em nossas vidas. A natureza já nos dá aula sobre isso.


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